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domingo, 29 de março de 2009

Cerâmica na História da Arte (parte 2)

Continuando a pesquisa da representação de cerâmicas na História da Arte, trago agora uma outra pintura. "A Leiteira" foi pintado por Jan Vermeer em 1658-1660, e é um lindo e poético retrato da vida cotidiana de uma típica casa holandesa do século 17.

A criada traz o leite numa jarra e o despeja na panela. O cômodo é simples: uma cozinha ou área de serviço.
Abaixo, um close da jarra e da panela, que também é de barro. à esquerda ainda vemos uma caneca ou jarra com tampa, esta mais finamente decorada, em azul e branco. São peças idênticas às mostradas no post anterior sobre cerâmica holandesa do século XVI.
Além dessas cerâmicas "protagonistas", temos ainda um detalhe que passa quase despercebido na pintura de Vermeer: atrás do aquecedor, o rodapé de azulejos de Delft.

As pinturas de Vermeer são sempre ambientadas em Delft, pois o artista morou e trabalhou nessa cidade. As cerâmicas e porcelanas estão presentes em boa parte de seus quadros. É só procurar.

Esta pintura é um óleo sobre tela, mede 45,5 x 41 cm e pertence ao acervo do Rijksmuseum Amsterdam, Holanda.

sábado, 28 de março de 2009

Cerâmica na História da Arte

Eu gostaria de mostrar, através de pinturas, como era a cerâmica em várias épocas e locais. Por isso inicio uma série de posts com o tema da cerâmica representada em pinturas.

Em muitos casos, a pintura serve como documento iconográfico de costumes, vestimentas, móveis, arquitetura e também objetos, como as cerâmicas. Esses dados são comprovados pela equivalência com objetos da mesma época que foram conservados em museus.

Até o século XIX, o pintor não tinha nenhuma razão para não retratar o aspecto das coisas com fidelidade. Pelo contrário, muitas vezes a pintura era considerada um documento visual, como no caso dos retratos.

Esta pintura chama-se "Um casamento aldeão", feita por Pieter Bruegel, o velho em 1565.

Pieter Bruegel (1525-1569) foi o maior artista flamengo de sua época. Especializado em “pintura de gênero” (cenas inspiradas na vida cotidiana), viveu e trabalhou em Antuérpia e Bruxelas. Concentrou-se em temas da vida camponesa, pintando os aldeões em seus afazeres e diversões.

À esquerda, em baixo, um homem serve bebida em jarros pequenos de cerâmica, que estão guardados num grande cesto. O detalhe foi ampliado, como vemos abaixo:
São jarras bem simples, como convém a uma cena camponesa. Provavelmente as pessoas nessa situação realmente usavam essas peças, e Bruegel pode tê-las pintado por observação, no ateliê.
Esta pintúra tem 113,5 x 163 cm, foi pintada a óleo sobre madeira, e pertence ao acervo do Kunsthistorisches Museum, em Viena, Áustria.

Cerâmica holandesa do século XVI

Eis aqui alguns exemplos de objetos utilitários de cerâmica holandesa do século 16.

Não são objetos requintados, que poderiam adornar as casas mais abastadas, mas sim peças simples, de uso cotidiano: Jarros, canecas, pratos e tigelas. Algumas delas são canecas para beber cerveja!

As cerâmicas são feitas no torno, como podemos ver. A argila é avermelhada, e algumas peças não são esmaltadas.

As peças avermelhadas que apresentam algum brilho são queimadas a sal. O sal, colocado dentro do forno durante a queima, vaporiza e vitrifica as peças. Era um recurso muito utilizado nas fábricas de cerâmica da Alemanha e da Holanda.







Esta última foto, acima, mostra alguns utensílios mais sofisticados. Percebemos que a decoração é mais fina e que o acabamento é decorativo.
Estas peças pertencem ao acervo do Amsterdams Historisch Museum, Amsterdam, Holanda.
Fotos: Luciana Chagas

quinta-feira, 26 de março de 2009

Cerâmica Waurá

Os índios Waurás, que vivem no Xingu, utilizam uma das mais primitivas técnicas de queima de que se tem notícia: queimam suas peças numa fogueira.

Acima, vemos a cerâmica dos Waurás sendo empilhada juntamente com pedaços de lenha, formando um cone.

Abaixo, a queima de cerâmica na fogueira atinge o ápice.
Abaixo, os índios waurás e suas cerâmicas, que já adquiriram o tom avermelhado característico da terracota, entre as cinzas da fogueira.
Acima: mesmo depois de queimados, estes escudos de cerâmica waurá são pintados com jenipapo, que dá a cor preta.


Abaixo, algumas vasilhas cerâmicas zoomórficas dos waurás.
Fonte e fotos:
"Arte no Brasil", vol. 1. Ed. Abril, 1979.
"Arte da Cerâmica no Brasil" - Pietro Maria Bardi. Banco Sudameris, 1980.

domingo, 22 de março de 2009

Mistérios da Cerâmica

Um torno elétrico visto por dentro:

Muitos dos meus alunos me perguntam como é que funciona um torno elétrico para cerâmica.
Pois bem, resolvi fotografar um por dentro, e, longe de mim ensinar a fazer tornos, vou esclarecer um pouco sobre o mecanismo que faz o torno girar.

Na primeira foto, vemos , à direita acima, a roda que está ligada ao eixo de rotação do prato do torno (onde modelamos a argila).
À esquerda, ligado por uma polia, o disco que transmite esse movimento.
Note que a borda inferior do disco está encaixada no motor, que é esse cilindrão aí à direita da foto.
O motor gira ao ligar o torno. Quando pisamos no pedal do torno, esse cilindrão se move ao encontro desse disco. Aí o disco gira também e transmite, pela polia, o movimento àquela roda.


Abaixo, um close do disco de transmissão:

Veja também a história dos tornos de cerâmica clicando em: "O torno para cerâmica: História"
Fotos: Luciana Chagas

sexta-feira, 20 de março de 2009

Lâmpadas / Lamparinas Cerâmica

As lâmpadas ou lamparinas eram feitas na antiguidade desde antes da Idade do Bronze. Feitas com materiais diversos, como terracota, metal, pedra ou vidro, eram usadas nos lares, nos estabelecimentos comerciais, prédios públicos como templos e termas (casas de banho). Eram carregadas em procissões, dedicadas a santuários, ou colocadas em tumbas.
Estas lâmpadas aqui são gregas e romanas, de épocas variadas (1600 a.C ao século 5 d.C)































Todas estas lâmpadas pertencem ao acervo do British Museum, Londres















Ao lado, um aspecto do processo de queima das lâmpadas, num forno de cerâmica do século 1 d.C. em Weisenau.
Fotos: Luciana Chagas

quarta-feira, 18 de março de 2009

Azulejos de Delft/ Delft Tiles

Este é o azulejo holandês chamado "quadrado" (kwadraattegel)ou "diamante".
Sua borda tem essa decoração em linhas diagonais nas quinas de cada peça, que em conjunto, formam losangos. Foi usado desde o século 16. Essa forma de diamante é bem antiga e foi usada nos azulejos espanhóis e italianos no século 14 e 15.
No início do século 17, vemos esse tipo de azulejo na Holanda com temas de animais ou potes de flores.

The Dutch quadrate or diamond tile was known since the end of the 16th century. The shape of diamonds exists already very long. In the early 17th century we see the diamond tile with the corner in reserve designed with motifs of animals and flowerpots.

Já este outro, um cavaleiro (abaixo), foi feito por volta de 1660.
Ilustrações de cavaleiros eram um tema muito popular em azulejos.


This tile (above), shows a knight and was made around 1660.
Tiles with warriors and knights saw a big production between 1620 and 1660.

É importante notar o desenho que decora as quinas de cada azulejo: esse do cavaleiro apresenta uma decoração chamada de "aranha" ou "abelha" (Spinnetje, bijtje) e o fragmento do azulejo que aparece junto com ele, uma flor-de-lis (Franse lelie).

The corner motif showed on the tiles calls "spider" or "bee" (Spinnetje, bijtje), and the fragment above shows a Fleur-de-Lis (Franse lelie).


Estes azulejos estão no Frans Hals Museum, Haarlem, Holanda.
Fotos: Luciana Chagas
These tiles belong to the Frans Hals Museum, Haarlem, the Netherlands
Pictures have been taken by Luciana Chagas

Fonte bibliográfica: Klein, Frans - Tegel ABC, Museum Magazijn Amsterdam, 2006.

Azulejos de Delft (II) Delft Tiles

Abaixo, temos a lareira da casa de Rembrandt em Amsterdam, decorada com azulejos no estilo diamante. Note os azulejos no rodapé, também.

This is the fireplace of Rembrandt's House (Rembrandthuis) in Amsterdam, decorated with tiles in diamond stile.


A seguir, alguns singelos azulejos (1660), sem decoração nas quinas, com motivos de casas e moinhos de vento.
Below, some tiles (1660), without corner motifs, with drawings of houses and windmills.
O desenho é bem requintado, com perspectiva, volumes, detalhes arquitetônicos e ainda um jogo de luz e sombra. Tudo pintado com óxido de cobalto sobre esmalte de estanho.
Estes azulejos acima decoram as paredes do Haagshistorischmuseum, Haia, Holanda
Fotos: Luciana Chagas

These tiles decorate the walls of the Haagshistorischmuseum, Den Haag, the Netherlands
Pictures taken by Luciana Chagas

segunda-feira, 16 de março de 2009

Manoel Galdino e o Processo Criativo

Manoel Galdino (1929-1996) foi pedreiro até os 50 anos de idade.
Trabalhava em algumas obras do serviço público no Alto do Moura, distrito de Caruaru (Pernambuco).
Seu início na cerâmica foi seguindo a linha da cerâmica figurativa, produzida por artesãos da região, como Mestre Vitalino, Manoel Eudócio e Zé Caboclo.
Mas Manoel Galdino foi uma figura muito singular dentro dessa produção. Segundo Joel Galdino, seu filho, ele não conseguia ter idéias para suas cerâmicas. Repetia sempre modelos prontos, mas incomodava-se com essa situação.
Seu "insight" se deu com a peça abaixo, "Mané Pãozeiro". Trata-se de um retrato satírico de um conhecido. Com uma mão na cabeça e a outra estendida, ele se faz de coitado para pedir dinheiro emprestado.
Juntamente com a estatueta, Manoel Galdino criou um poema, no qual explica a criatividade.
São versos que têm a estrutura do cordel, e na sua intuição e prática, Galdino descreve as etapas do processo criativo de uma maneira muito interessante e exata:
























SE CRIA ASSIM
Quem cria tem que dormir
Pensar bem no passado
De tudo ser bem lembrado
Jirar o juizo como louco
Ter a voz como um pipoco
Ter o corpo com energia
Ler o escudo do dia
Conservar uma oração
Fazer sua oração
Ao deus da poesia.
Deve durmir muito cedo
Muito mais cedo acordar
Muito mais tarde sonhar
Muito afoito e menos medo
Muito honesto com segredo
Muito menos guardar
Muito mais revelar
Pra ter mais soberania
Muito pouca covardia
Não durmi pra sonhar
[Poema de Mestre Galdino]


A partir dessa escultura, Galdino começa a produzir Criaturas fantásticas com aspecto sem paralelo na produção do Alto do Moura. De acordo com o museólogo do Museu do Barro, em Caruaru, suas peças têm o status de arte.




Este é um Lagarto, réplica de Joel Galdino. Tem 65 cm de comprimento.
Os olhos são muito expressivos, os dentes são de dragão, ou de algum monstro muito assustador.
Mas ele parece uma pessoa.

No Memorial Mestre Galdino, no Alto do Moura, podem ser vistas diversas criações suas.

Fotos: Luciana Chagas
Mané Pãozeiro e Lagarto:réplicas feitas por Joel Galdino
Coleção Luciana Chagas

sábado, 14 de março de 2009

O Torno para cerâmica: História

Os primeiros rudimentos da técnica de modelagem de potes em argila ocorreram quando as pessoas apertavam a argila sobre cestos de palha, que funcionavam como moldes.
Em seguida, os potes de argila começaram a ser construídos de maneira independente, à mão livre.
Os ceramistas antigos começaram então a fazer a base de seus potes dentro de pedras côncavas ou no fundo de um pote quebrado, que poderia ser rodado enquanto era trabalhado, sem a necessidade de o ceramista andar em volta dele para conformá-lo.
Essa técnica pode ser vista até hoje, como nesta foto de uma ceramista índia norte-americana.
Os primeiros tornos eram provavelmente muito parecidos com este aqui abaixo, utilizado até hoje na Índia. Trata-se de uma roda pesada, fixa num eixo ao chão, que é rodada com um bastão. O lastro da roda permite que o ceramista use as dias mãos para modelar a peça.
O desenvolvimento seguinte do torno, um que é usado até hoje, consiste numa mesa circular diretamente conectada por um eixo, a uma roda pesada, que o ceramista move diretamente com o pé (direct kick wheel).

Este é um modelo moderno de um torno kick wheel.

Este torno possui um pedal que se conecta à roda pesada, em que o ceramista trabalha em pé.

Este torno de pedal também possui movimentação indireta, que se parece um pouco com os pedais das antigas máquinas de costura. Permite que o ceramista trabalhe sentado. Repare também no selim de bicicleta...
Abaixo: este é um torno híbrido, que tem a roda e o motor acoplado.


Os tornos elétricos modernos são mais leves e compactos. Possuem um pedal para que o ceramista regule a velocidade com o pé. Possuem também uma bacia para evitar respingos de argila. Abaixo, dois modelos americanos: Um com banqueta acoplada e o outro com pés de altura regulável.

Fotos: "Throwing on the Potter's Wheel" - Thomas Sellers. The American Ceramic Society, Westerville, Ohio.