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segunda-feira, 16 de março de 2009

Manoel Galdino e o Processo Criativo

Manoel Galdino (1929-1996) foi pedreiro até os 50 anos de idade.
Trabalhava em algumas obras do serviço público no Alto do Moura, distrito de Caruaru (Pernambuco).
Seu início na cerâmica foi seguindo a linha da cerâmica figurativa, produzida por artesãos da região, como Mestre Vitalino, Manoel Eudócio e Zé Caboclo.
Mas Manoel Galdino foi uma figura muito singular dentro dessa produção. Segundo Joel Galdino, seu filho, ele não conseguia ter idéias para suas cerâmicas. Repetia sempre modelos prontos, mas incomodava-se com essa situação.
Seu "insight" se deu com a peça abaixo, "Mané Pãozeiro". Trata-se de um retrato satírico de um conhecido. Com uma mão na cabeça e a outra estendida, ele se faz de coitado para pedir dinheiro emprestado.
Juntamente com a estatueta, Manoel Galdino criou um poema, no qual explica a criatividade.
São versos que têm a estrutura do cordel, e na sua intuição e prática, Galdino descreve as etapas do processo criativo de uma maneira muito interessante e exata:
























SE CRIA ASSIM
Quem cria tem que dormir
Pensar bem no passado
De tudo ser bem lembrado
Jirar o juizo como louco
Ter a voz como um pipoco
Ter o corpo com energia
Ler o escudo do dia
Conservar uma oração
Fazer sua oração
Ao deus da poesia.
Deve durmir muito cedo
Muito mais cedo acordar
Muito mais tarde sonhar
Muito afoito e menos medo
Muito honesto com segredo
Muito menos guardar
Muito mais revelar
Pra ter mais soberania
Muito pouca covardia
Não durmi pra sonhar
[Poema de Mestre Galdino]


A partir dessa escultura, Galdino começa a produzir Criaturas fantásticas com aspecto sem paralelo na produção do Alto do Moura. De acordo com o museólogo do Museu do Barro, em Caruaru, suas peças têm o status de arte.




Este é um Lagarto, réplica de Joel Galdino. Tem 65 cm de comprimento.
Os olhos são muito expressivos, os dentes são de dragão, ou de algum monstro muito assustador.
Mas ele parece uma pessoa.

No Memorial Mestre Galdino, no Alto do Moura, podem ser vistas diversas criações suas.

Fotos: Luciana Chagas
Mané Pãozeiro e Lagarto:réplicas feitas por Joel Galdino
Coleção Luciana Chagas

5 comentários:

Anônimo disse...

vizitei e amei a historia sobre esse mestre tão rico na arte do barro-manoel galdino... espero q todos tenham gostado de verdade amei o trabalho dele e de seu filho.

Anônimo disse...

Eu gostaria de entrar em contato com a fotógrafa Luciana Chagas para pedir-lhe autorização para utilizar estas fotografia em minha dissertação de mestrado.
Grata!
Abraço.
Márcia (marcia_mms@terra.com.br)

Colares de Frida disse...

Eu tenho um Joel Galdino! Com muito orgulho!! Que bom ver seu trabalho neste blog!

Anônimo disse...

Só este poema já valeria a visita, belíssimo trabalho! Parabéns, e continue...

Carlos Sá disse...

Olá, meu nome é Carlos Sá, tenho 52 anos, sou fotógrafo, moro em Caruaru/PE e fui muito amigo de Mané Galdino.
Galdino se estabeleceu no Alto do Moura, há seis km do centro de Caruaru, em 1976 e lá permaneceu até sua morte, no dia 25 de maio de 1996. No Alto do Moura, existe um memorial que leva seu nome.
Aqui, em Caruaru, dizemos que se Mestre Vitalino deu vida ao barro, Mestre Galdino deu-lhe alegria...
Galdino foi único! Impossivel copiar sua arte. Nem mesmo ele copiava suas criações, tendo sido o "Mané Pãozeiro" a única peça que foi copiada em série pelo Mestre (questão de sobrevivência!.
No inicio de sua vida artística, Galdino produzia máscaras (tenho uma delas) e moringas, mas a evolução de sua arte era incrívelmente rápida e a cada vez que eu o visitava em sua casa/atelier, me surprendia com seus "bichos feios". Como eram conhecidas as suas peças pelos artesões do Alto do Moura.
Tive a oportunidade de fazer a primeira foto de Galdino como artista, em 1977, e a sua última, em seu enterro...
Parabéns a autora pelo estudo da obra do mestre e me ponho à disposição através de meu i-mail (sa_foto@ig.com.br)para qualquer informação sobre Galdino e seu universo... Ah! o poema "Se Cria Assim", Galdino o fez para ilustrar o cartaz de sua exposição que aconteceu em Sâo Paulo, no inicio dos anos 90.
Abraços a todos!